Blog

Split payment: o imposto sai antes de o dinheiro chegar
Gestão

Split payment: o imposto sai antes de o dinheiro chegar

O que muda quando o tributo é separado no instante do pagamento, quem é atingido, quando começa, e por que MEI e Simples pelo DAS ficam de fora nesta primeira fase

José dos Reis Rodrigues - Advogado · 11 de agosto de 2026 · 6 min de leitura

#split payment#reforma tributária#IBS#CBS#MEI#Simples Nacional#imposto#jurídico

Você atende a cliente, ela paga no PIX, e o valor cai na sua conta. Daqui a algum tempo, essa cena muda: parte do dinheiro vai ser separada no caminho, para pagar imposto, antes de chegar até você. Esse mecanismo tem nome, split payment, e é o assunto que mais tem tirado o sono de quem tem um negócio pequeno.

Este texto explica o que ele é, quem ele alcança, quando começa, e por que provavelmente ele não vai bater na sua porta tão cedo quanto o barulho sugere.

O que a lei diz

A reforma tributária criou dois impostos novos, o IBS e a CBS, que vão substituir cinco tributos que existem hoje. A Lei Complementar 214, de 2025, é quem detalha o funcionamento, e é nela que aparece o split payment.

Split payment, em português direto, é recolhimento na hora do pagamento. Quem faz a separação não é você nem a sua contadora: é o próprio meio de pagamento, o banco ou a maquininha, no instante em que a transação é liquidada. O imposto não passa pela sua conta e depois sai. Ele nunca entra.

A lei prevê mais de uma forma disso acontecer. Existe o modelo padrão, pensado para as operações entre empresas, existe uma versão simplificada, e existe a possibilidade de quem compra recolher no lugar de quem vende. As três convivem, e o detalhe de como cada uma vai funcionar na prática ainda está sendo definido por ato conjunto da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS.

O calendário, que é onde mora o alívio

Aqui está a informação que costuma faltar na conversa, e ela muda bastante a sensação de urgência.

2026, o ano em que estamos, é ano de teste. O IBS e a CBS já aparecem destacados na nota fiscal, com uma alíquota simbólica de 1% no total, e existe mecanismo de compensação. Nesta fase, ninguém paga split payment de verdade. Em junho deste ano, a Receita e o Comitê Gestor publicaram a documentação técnica da plataforma que vai fazer a ponte entre os meios de pagamento e o fisco. É construção de encanamento, e é isso que está acontecendo agora.

2027 é quando a CBS começa a valer para valer, e é quando o split payment entra em cena. Só que ele entra devagar, e vale reparar em três limites da primeira fase:

  • Começa facultativo, não obrigatório para todo mundo de uma vez.
  • Começa principalmente nas operações entre empresas, e não na venda para a consumidora final.
  • Começa por PIX, boleto e transferência. Cartão de crédito, cartão de débito e voucher entram numa etapa seguinte.

O IBS, que substitui o ICMS e o ISS, tem uma transição bem mais longa, que se estende até o começo da década de 2030.

E agora a parte que interessa a quem trabalha com beleza, saúde e bem-estar

Se você é MEI, o split payment não muda o seu recolhimento. O MEI paga um valor fixo por mês, e essa lógica continua. Não existe imposto sendo separado do seu PIX por causa disso.

Se você está no Simples Nacional e paga pelo DAS, também não. Enquanto o seu recolhimento acontece dentro da guia única do Simples, não há split payment sobre as suas vendas.

Existe uma exceção, e ela é justamente a que merece atenção: a empresa do Simples pode optar por apurar o IBS e a CBS por fora, no regime normal. É o que vem sendo chamado de Simples híbrido. Quem faz essa opção passa a ter a parcela de IBS e CBS das suas vendas dentro da lógica do split.

Por que alguém escolheria isso? Porque quem compra de você, sendo empresa, aproveita crédito desses impostos. Se a sua clientela é formada por consumidoras finais, isso não faz diferença nenhuma para elas. Mas se você vende para outras empresas, a conversa muda. E isso é mais comum no nosso meio do que parece: quem fabrica brinde ou acessório e vende para colegas de profissão, quem produz cosmético e revende para salão, quem aluga cadeira ou sala, quem loca aparelho. Nesses casos, a sua cliente é uma empresa, e a decisão do regime deixa de ser só sobre o seu bolso e passa a afetar o preço que você consegue praticar.

O que costuma dar errado

Confundir "vai mudar" com "mudou". A maior parte do que se lê por aí descreve o desenho final do sistema, que só fica pronto lá na frente, com o verbo no presente. Isso faz muita gente pequena tomar decisão apressada, trocar de regime sem precisar ou pagar por serviço de adequação que ainda não tem o que adequar.

Achar que o problema é de imposto, quando ele é de caixa. Para quem vai ser alcançado, o valor total pago não muda por causa do split payment. O que muda é o momento: o dinheiro do imposto para de circular na conta antes de ser recolhido. Quem se acostumou a usar esse intervalo para pagar fornecedor no começo do mês sente a diferença, e não é no lucro, é no fluxo.

Não saber em que regime está. Parece básico, e não é: muita gente descobre que a própria empresa está num regime diferente do que imaginava justamente quando precisa decidir alguma coisa.

O que dá para fazer agora, sozinha

  1. Descubra em que regime você está hoje. MEI, Simples ou Presumido. Está no seu cartão CNPJ e no extrato do Simples, e a sua contadora responde em um minuto.
  2. Olhe a sua nota fiscal. Se ela já traz IBS e CBS destacados, está certo, é o ano de teste. Não é cobrança nova.
  3. Responda a uma pergunta só: alguma parte do meu faturamento vem de venda para empresa? Se a resposta é não, você tem tempo. Se é sim, marque uma conversa sobre o regime antes do fim do ano.
  4. Separe o dinheiro do imposto desde já. Não pela reforma, mas porque isso é boa gestão de qualquer jeito, e quem já faz não vai sentir a mudança quando ela chegar.
  5. Guarde a data: 31 de janeiro é o prazo da opção de regime tributário. Quem só pensa nisso em janeiro decide correndo.

Quando parar e procurar ajuda

Procure uma contadora ou um advogado quando: você vende para empresas e precisa decidir sobre o Simples híbrido; você está perto do teto do seu regime; você tem mais de uma atividade no mesmo CNPJ; ou você recebeu uma proposta de "adequação à reforma" e quer saber se aquilo faz sentido para o seu tamanho.

E uma última observação, porque ela é a mais útil de todas: o barulho sobre a reforma é maior que o efeito imediato dela na maioria dos negócios pequenos de beleza, saúde e bem-estar. Isso não quer dizer que não venha mudança, quer dizer que você tem tempo para entender antes de decidir. Decisão tomada com pressa é o que costuma sair caro nessas viradas, e não a virada em si.

Texto de José dos Reis Rodrigues, advogado, OAB/MG 240.179. Este conteúdo é informativo e geral, e reflete as regras e o cronograma conhecidos em agosto de 2026, quando ainda há definições pendentes de regulamentação. Cada caso tem particularidades, e nada aqui substitui a orientação de um profissional sobre a sua situação.

Este conteúdo foi útil para você?

Seja a primeira a avaliar

Comentários

Compartilhe sua experiência com respeito 💕, comentários que violam as regras da plataforma são bloqueados.

Continue lendo

Manicure pode ser MEI? Como se formalizar de graça em poucos minutos
Gestão

Manicure pode ser MEI? Como se formalizar de graça em poucos minutos

Sim, pode. Quanto custa, o que muda no seu bolso, como escolher o CNAE certo e quando ainda não é hora de abrir.

Equipe BeautySet · 08/08/2026

5 min
Como abrir o seu studio de beleza do zero: o passo a passo sem enrolação
Gestão

Como abrir o seu studio de beleza do zero: o passo a passo sem enrolação

Comece pelo que você já tem, não pelo que falta. As três portas de entrada, o enxoval mínimo e a conta que precisa fechar antes de assinar contrato.

Equipe BeautySet · 02/08/2026

5 min
Onde a beleza quebra: o que 4,3 milhões de negócios contam sobre sobreviver
Gestão

Onde a beleza quebra: o que 4,3 milhões de negócios contam sobre sobreviver

De tudo que já abriu no setor de beleza e bem-estar no Brasil, 43,3% fechou. E morre o dobro entre quem entra sem preparo de gestão. Este é o mapa que decidiu por onde a BeautySet começou.

Equipe BeautySet · 09/08/2026

8 min
A agenda que negocia: os quatro jeitos de marcar um horário na BeautySet
Gestão

A agenda que negocia: os quatro jeitos de marcar um horário na BeautySet

Referência completa de como a agenda funciona: os quatro caminhos de marcação, as regras de tempo e de dinheiro que ficam na sua mão, a bilateralidade de remarcar e cancelar, e o que ainda vamos melhorar.

Equipe BeautySet · 09/08/2026

8 min
Voltar ao blog